A celebração pelo encerramento dos Grandes Jogos ainda ecoava pela cidade quando os Escolhidos do Oráculo, agora reconhecidos em toda Mytros por seus feitos, se permitiram uma noite de banquete, música e vinho antes de decidir os próximos passos. A fama os seguia por todo lugar: eram recebidos com bebidas grátis, desafiados a provas de força e agraciados com presentes estranhos e inúteis por admiradores. Foi em meio a esse descanso merecido, hospedados numa das tavernas da cidade, que a noite se voltou contra eles. Todos compartilharam o mesmo pesadelo: um navio afundando em alto mar, tomado pela tempestade, e um velho decrépito amarrado a uma estaca, torturado e por fim decapitado por uma sombra que ninguém conseguia ver por completo. Ao fundo de tudo, uma voz feminina sussurrava que aquilo era apenas o começo de uma grande missão que os aguardava — e que ela, a Senhora dos Sonhos, voltaria. Ao despertar, a maioria do grupo sentiu a marca do sacrifício do javali arder e desaparecer de suas mãos, consumida ao protegê-los da loucura que a titã Lutheria tentara implantar em suas mentes. Mas nem todos tiveram essa sorte: Olga despertou com o olhar vazio, tendo perdido toda capacidade de decidir por si mesma e agora obrigada a obedecer qualquer ordem que lhe fosse dada, contanto que não fosse autodestrutiva; e Myrina, que sequer conseguia falar sem cair em risos incontroláveis, prantos ou gritos, mergulhou num estado de profunda perturbação mental.
Abalados, o grupo debateu o que fazer. A sugestão de investigar os templos de Lutheria na cidade — como a rainha Vallus os havia alertado — dividiu as opiniões: alguns queriam partir imediatamente rumo ao navio que os esperava, temendo que permanecer na cidade os deixasse mais vulneráveis a um novo pesadelo na noite seguinte, já que a proteção do sacrifício se esvaíra. Outros insistiam que valia a pena arriscar mais um dia para descobrir que poder estaria alimentando a titã. A votação terminou empatada, e foi o voto hesitante de Myrina, ainda combalida pela loucura, que decidiu: ficariam na cidade, mas apenas por aquele dia — se nada fosse resolvido, partiriam sem olhar para trás.
Os Escolhidos seguiram então até o pequeno mas suntuoso templo de Lutheria, decorado com estátuas de uma mulher sorridente de olhos escuros empunhando uma foice, e cheirando a vinho doce vindo de incontáveis barris e jarras. Foram recebidos pelo sumo sacerdote Trellus, de máscara de bronze, e por sua irmã Séptia — os dois reveleando, sem qualquer pudor, serem amantes incestuosos diante de todos. Trellus insistiu que provassem do vinho sagrado, e quando Olga, compelida por sua loucura a obedecer a ordem implícita, ergueu a taça e bebeu, nada de anormal pareceu acontecer. O sacerdote então revelou o motivo de tê-los recebido com tanta festa: carregamentos de vinho importado, o negócio mais lucrativo do templo, vinham desaparecendo antes mesmo de chegar, e ele suspeitava que ladrões estivessem se escondendo nos vinhedos da cidade, competindo pelo título de melhor adega. Ofereceu duas mil peças de ouro por cada bandido entregue vivo, mil por cada um morto — e pediu explicitamente que fossem capturados vivos, alegando não querer confusão com a política religiosa da cidade. O comportamento do casal, as perguntas insistentes sobre um artefato profético desaparecido e a menção fria a um ritual que exigia números exatos deixaram o grupo profundamente desconfiado, mas fingiram aceitar e se despediram, sob o pretexto de terem chegado à cidade havia pouco tempo.
Ao saírem, deixaram para trás o familiar de Aletheion, o pequeno espírito Augur, tornado invisível dentro do templo. Pouco depois de sua partida, os dois sacerdotes, furiosos por não terem conseguido reter o instrumento que procuravam, desceram trancados a um porão que outrora servira de adega. Augur os seguiu em silêncio e testemunhou o horror: o local fora convertido num altar ritualístico coberto de sangue e cheirando a morte, com treze ganchos de açougueiro dos quais pendiam treze crianças vendadas e amordaçadas, se debatendo em vão sob o efeito de uma magia de silêncio que apagava até seus gritos. Os irmãos, alheios ao horror que promoviam, se entregaram um ao outro bem diante das crianças amarradas. De volta à rua, o grupo recebeu a confirmação de suas piores suspeitas por parte de um estranho enorme que os observava escondido — Kalistor, um meio-gigante de aparência majestosa que se apresentou como filho envergonhado de um pai lendário e desprezado. Kalistor confirmou que Trellus e Séptia vinham escondendo crianças para um sacrifício humano, mas confessou não ter forças para intervir por conta própria; encantado à primeira vista por Rhea, a quem cumprimentou com reverência quase religiosa, implorou que o grupo salvasse as crianças e convidou a guerreira a encontrá-lo depois no Poleiro da Sereia.
Diante do dilema — atacar o templo imediatamente ou primeiro reunir mais informações nos vinhedos — o grupo voltou a se dividir, temendo tanto pela vida das crianças quanto pelas consequências políticas de agredir um templo protegido pela tolerância religiosa da cidade. A votação, novamente apertada, decidiu por investigar primeiro os vinhedos, na esperança de encontrar provas e aliados antes de agir. Lá, entre a névoa espessa de um vale escondido por sátiros, encontraram uma clareira onde criaturas féricas bebiam, dançavam e se banqueteavam ao redor de pilhas de barris marcados com o símbolo de Lutheria. O líder daquele grupo, o sátiro Bórias — um dos Quatro Ventos —, revelou sem rodeios que vinha roubando as entregas de vinho como pagamento pelo cuidado mágico que ele e os seus davam aos vinhedos, um acordo que os sacerdotes jamais haviam honrado por completo. Ao saber que o grupo tinha um conflito direto com Trellus e Séptia, Bórias fez uma proposta sinistra: entregaria dois barris de imediato, e em troca das cabeças decapitadas dos dois irmãos, presentearia o grupo com o item mais precioso que possuía — uma harpa sagrada roubada há muito tempo do santuário de uma das deusas, um dos quatro instrumentos de Kyrah, a musa. O acordo foi selado.
Ao deixarem a clareira, carregando os dois barris prometidos, o grupo sentiu o vento mudar: da brisa fria que mantinha o esconderijo de Bórias oculto, passaram a uma brisa quente e insistente que os desviou, sem que percebessem, do caminho de volta à cidade. Em vez de chegarem aos portões de Mytros, encontraram-se numa clareira coberta de flores silvestres, diante de uma pequena ruína de mármore guardada por um monte de vinhas animadas e por um sátiro-menestrel que tocava alaúde sobre um dos pilares. Ele se apresentou como Zéfero, senhor do vento quente e outro dos Quatro Ventos, e revelou que aquele era um templo esquecido do antigo deus-sol Hélios — uma relíquia que ele mesmo mantinha em movimento perpétuo através da história para que jamais fosse encontrada, e que apenas a convergência acidental entre seu vento e o de Bórias havia trazido o grupo até ali. Zéfero cantou para eles a trágica história de um mortal que roubara a carruagem solar e se aproximara demais do sol até derreter — e, enquanto a canção embalava os sentidos do grupo, todos menos Aletheion caíram adormecidos, vencidos por um encanto que só não afetou o meio-elfo por sua natureza feérica.
Ao perceber que era um elfo, Zéfero se abriu com Aletheion, revelando que roubara aquela harpa de outra das cinco divindades num templo há muito tempo, e que desde então sentia o dever de proteger o santuário esquecido de Hélios a qualquer custo. Diante da recusa do grupo em apagar suas próprias memórias sobre o local, o sátiro declarou, com pesar, que não via outra saída além da violência: ou os enterraria sob aquele monte de vinhas, ou o segredo do templo seria exposto e ele mesmo pereceria tentando protegê-lo. Um acorde de sua harpa bastou para que vinhas constritoras brotassem do solo e prendessem todo o grupo, exceto Aletheion, que ainda lutava contra o encanto do sono. Enquanto os demais lutavam para se libertar das amarras vegetais, o monte animado que guardava as ruínas se ergueu para atacar, e Zéfero, vendo que a resistência do grupo não cederia, arrancou de suas cordas um elemental de fogo para se juntar à batalha. Envoltos em vinhas, calor abrasador e a melodia hostil do sátiro, os Escolhidos do Oráculo se viram em pleno combate contra os guardiões do templo esquecido — um confronto que ficou em suspenso, sem resolução, à espera da próxima jornada.
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A noite, cena a cena
O Pesadelo Enviado por Lutheria
Todo o grupo compartilha o mesmo sonho: um navio afundando em alto mar durante uma tempestade, e na proa um velho amarrado a uma estaca sendo torturado e decapitado por uma sombra, enquanto uma voz promete retornar.
A Loucura Toma Olga e Myrina
Sem a proteção da marca do sacrifício do javali, Olga perde o livre-arbítrio e passa a obedecer qualquer ordem, enquanto Myrina cai catatônica, incapaz de reagir a não ser rindo, chorando ou gritando.
Recebidos pelos Sacerdotes de Lutheria
No pequeno mas luxuoso templo de Lutheria em Mytros, os Escolhidos são recebidos por Trellus, o sumo sacerdote, e sua irmã e amante Séptia — um casal que os trata com um afeto desconfortável demais.
Augur Testemunha o Porão do Sacrifício
Invisível, o familiar demoníaco Augur espiona os irmãos descendo a um porão ritualístico coberto de sangue: treze ganchos de açougueiro, treze crianças amordaçadas e silenciadas penduradas pelas mãos — enquanto Trellus e Séptia se entregam um ao outro, observando as vítimas.
Kalistor Confirma as Suspeitas
Do lado de fora do templo, o meio-gigante Kalistor confirma as suspeitas do grupo sobre os sacerdotes e insta os Escolhidos a resgatar as crianças, revelando um interesse particular por Rhea.
Bórias Negocia nos Vinhedos Feéricos
Numa clareira feérica nos vinhedos de Mytros, o sátiro Bórias, um dos Quatro Ventos, oferece uma harpa sagrada roubada de uma deusa em troca das cabeças decapitadas de Trellus e Séptia.
Zéfero Prende o Grupo em Vinhas Constritoras
Diante do templo esquecido de Hélios, o sátiro-menestrel Zéfero exige apagar as memórias do grupo para proteger o segredo do santuário — e diante da recusa, conjura vinhas constritoras que prendem todos ao chão.
Um Elemental de Fogo Se Ergue Contra o Grupo
Ainda presos pelas vinhas, os Escolhidos veem Zéfero invocar um elemental de fogo para acabar com eles — o combate mais perigoso da sessão fica em aberto para a próxima vez.
Ficha da sessão
Locais visitados
- Templo de Lutheria (Mytros) — Pequeno templo luxuosamente decorado onde Trellus e Séptia recebem os Escolhidos com vinho sagrado e lhes oferecem uma missão para recuperar barris roubados, enquanto escondem um porão ritualístico com crianças sequestradas.
- Vinhedos de Mytros / clareira feérica de Bórias — Vale coberto de névoa e rosas silvestres onde sátiros liderados por Bórias, um dos Quatro Ventos, festejam entre barris roubados de vinho de Lutheria, revelando o motivo do roubo e negociando a entrega de uma harpa sagrada.
- Templo esquecido de Hélios — Ruína de mármore escondida e mantida em movimento constante por magia dos ventos, guardada por Zéfero e por um monte de vinhas animado, palco do confronto final da sessão.
Batalhas
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Zéfero, o monte verdejante e o elemental de fogo
empate
No templo esquecido de Hélios, Zéfero prendeu o grupo (exceto Aletheion) em vinhas constritoras e invocou um monte de vinhas animado e um elemental de fogo após a recusa do grupo em apagar suas memórias sobre o santuário oculto; o combate ficou sem resolução, interrompido para a sessão seguinte.
Momentos-chave
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Perigo ambiental Todo o grupo compartilha um pesadelo enviado pela titã Lutheria; a marca do sacrifício do javali protege a maioria, mas Olga perde o livre-arbítrio e Myrina cai numa loucura de risos, prantos e gritos incontroláveis.
Olga, Myrina
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Revelação O familiar de Aletheion testemunha os sacerdotes gêmeos e incestuosos Trellus e Séptia descendo a um porão ritualístico com treze crianças sequestradas, silenciadas por magia e destinadas a sacrifício.
Aletheion
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Momento de personagem O meio-gigante Kalistor se apaixona instantaneamente por Rhea e confirma as suspeitas do grupo sobre o plano sinistro dos sacerdotes de Lutheria, mas admite não ter forças para intervir por conta própria.
Rhea
- Revelação Bórias, um dos Quatro Ventos, revela roubar os vinhos de Lutheria como pagamento não honrado e oferece uma harpa sagrada roubada de uma deusa em troca das cabeças decapitadas de Trellus e Séptia.
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Perigo ambiental Uma convergência mágica entre os ventos de Bórias e Zéfero desvia o grupo para um templo esquecido do deus Hélios, onde Zéfero os prende em vinhas e invoca criaturas para atacá-los ao se recusarem a esquecer o segredo do santuário.
Aletheion, Absolus, Rhea, Olga